A realidade que delira
Autoritarismo latino-americano e moralidade política
Resumo
O ressurgimento do autoritarismo nos regimes democráticos latino-americanos é uma possibilidade imanente da modernidade. A articulação entre a racionalidade instrumental, a reconfiguração neoliberal e a fragilidade dos mecanismos de integração social favorece a emergência de formas de dominação que preservam a legalidade democrática enquanto reordena seus conteúdos normativos. Nesses arranjos, a democracia opera, simultaneamente, como horizonte de legitimação da tecnologia de governo, em que a centralização decisória no Executivo, a normalização da exceção, o controle seletivo da esfera pública e a conversão das eleições em dispositivos de ratificação hegemônica permitem a reprodução do poder sob a aparência do Estado de Direito, e como artífice contrário a autocracia. Ao combinar modernização econômica, discurso de ordem e promessas seletivas de inclusão, produz-se uma configuração paradoxal na qual pluralismo, alternância de poder e crítica pública são progressivamente neutralizados sem ruptura institucional explícita. Nesse quadro, interrogo sobre o papel da esquerda latino-americana, problematizando a substituição da ação política pela moralização do debate público. Sustento que a centralidade da virtude como critério de legitimação produz impotência estratégica, desloca o conflito para o registro ético, contribuindo para a despolitização das disputas sociais e reforçando as dinâmicas autoritárias que pretende combater. A revitalização da crítica democrática passa por uma recusa da moral como sucedâneo da política e a retomada de uma análise estrutural das formas contemporâneas de dominação.
Downloads
Copyright (c) 2026 Autor e Revista

This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
Os Direitos Autorais para artigos publicados nesta revista são do(a) autor(a), com direitos de primeira publicação para a revista. Os artigos são de uso gratuito em aplicações exclusivamente acadêmicas e educacionais e, portanto, não-comerciais.