“TUDO QUE ELES NÃO VEEM É O QUE A GENTE VIVE”

SOFRIMENTO E RESISTÊNCIA ENTRE JOGADORES PROFISSIONAIS DO FUTEBOL DA ÚLTIMA DIVISÃO DO BRASIL

  • Aleff Silva Aleixo Universidade Estadual da Paraíba
Palavras-chave: Futebol, Futebol Profissional, Trabalho, Série D

Resumo

Este artigo investiga as repercussões subjetivas do trabalho no futebol profissional da última divisão do campeonato brasileiro, enfocando principalmente as estratégias defensivas e formas de sustentação mobilizadas pelos jogadores para permanecer na profissão. Parte-se da compreensão do futebol não apenas como espetáculo esportivo, mas como organização do trabalho marcada por precariedade, instabilidade contratual, pressão por desempenho e intensa disciplina institucional. Metodologicamente, a pesquisa foi conduzida a partir de entrevistas semiestruturadas com 19 atletas de um clube da Série D do Campeonato Brasileiro, articuladas à observação participante realizada ao longo de seis meses na condição de psicólogo do clube. Os dados foram analisados à luz da antropologia/sociologia do esporte e da psicossociologia do trabalho. Os resultados apontam que a dinâmica institucional dos clubes da última divisão se organiza em torno da produção sistemática de incerteza e sofrimento, mobilizando mecanismos de controle, vigilância e concorrência permanentes. Em resposta a esse cenário, os jogadores recorrem a estratégias coletivas e simbólicas de elaboração do sofrimento, dentre as quais se destacam a religiosidade, a família, os coletivos de trabalho e o próprio desempenho da atividade futebolística. Conclui-se que os principais sustentáculos subjetivos da permanência na carreira são externos à instituição clubística, o que evidencia os limites das atuais discussões sobre saúde mental no futebol quando desvinculadas da organização concreta do trabalho nesses espaços.

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Publicado
2026-08-04
Seção
Dossiê - Estudos socioculturais sobre o futebol