“TUDO QUE ELES NÃO VEEM É O QUE A GENTE VIVE”
SOFRIMENTO E RESISTÊNCIA ENTRE JOGADORES PROFISSIONAIS DO FUTEBOL DA ÚLTIMA DIVISÃO DO BRASIL
Resumo
Este artigo investiga as repercussões subjetivas do trabalho no futebol profissional da última divisão do campeonato brasileiro, enfocando principalmente as estratégias defensivas e formas de sustentação mobilizadas pelos jogadores para permanecer na profissão. Parte-se da compreensão do futebol não apenas como espetáculo esportivo, mas como organização do trabalho marcada por precariedade, instabilidade contratual, pressão por desempenho e intensa disciplina institucional. Metodologicamente, a pesquisa foi conduzida a partir de entrevistas semiestruturadas com 19 atletas de um clube da Série D do Campeonato Brasileiro, articuladas à observação participante realizada ao longo de seis meses na condição de psicólogo do clube. Os dados foram analisados à luz da antropologia/sociologia do esporte e da psicossociologia do trabalho. Os resultados apontam que a dinâmica institucional dos clubes da última divisão se organiza em torno da produção sistemática de incerteza e sofrimento, mobilizando mecanismos de controle, vigilância e concorrência permanentes. Em resposta a esse cenário, os jogadores recorrem a estratégias coletivas e simbólicas de elaboração do sofrimento, dentre as quais se destacam a religiosidade, a família, os coletivos de trabalho e o próprio desempenho da atividade futebolística. Conclui-se que os principais sustentáculos subjetivos da permanência na carreira são externos à instituição clubística, o que evidencia os limites das atuais discussões sobre saúde mental no futebol quando desvinculadas da organização concreta do trabalho nesses espaços.
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