"O CRIME É O CRIME E EU NÃO POSSO ERRAR”:
TORCIDAS ORGANIZADAS, PCC E A REGULAÇÃO DO CONFLITO NO FUTEBOL PAULISTA
Resumo
Este trabalho investiga como a ordem criminal do Primeiro Comando da Capital (PCC) incide sobre as formas de convivência e de administração de conflitos entre Torcidas Organizadas (TO) no Estado de São Paulo. Partindo de uma perspectiva que recusa tanto a redução das torcidas à violência quanto a leitura do crime organizado como agente externo ao universo do futebol, o trabalho sustenta que esses fenômenos compartilham territórios e redes de sociabilidade que os tornam mutuamente constitutivos. A hipótese central é a de que os “Salves” e demais mecanismos de regulação produzidos pela facção, “Debates”, “Proceder” e “Ética”, atravessam de modo seletivo e situacional as dinâmicas torcedoras, instituindo limites aos conflitos e produzindo formas locais de controle e pacificação que, em certos contextos, são percebidas como mais eficazes do que a mediação estatal. A metodologia utilizada é qualitativa, de caráter exploratório e analítico, combinando revisão bibliográfica nas sociologias do esporte, da violência e do crime, conversas informais com interlocutores vinculados a TO e observação de campo. Os resultados indicam que a redução de conflitos entre TO não decorre exclusivamente de políticas públicas ou da repressão policial, mas também de arranjos informais de regulação capazes de produzir adesão, sanção e credibilidade moral em territórios onde o Estado atua de forma insuficiente. Conclui-se que o PCC não opera como presença meramente repressiva e externa, mas como instância que reorganiza condutas, reconfigura rivalidades e impacta profundamente a sociabilidade torcedora em São Paulo.
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