CHAMADA PIXO 40/41 - CIDADES DAS ÁGUAS
Embora os debates recentes sobre a crise climática tenham se intensificado em múltiplos fóruns nacionais e internacionais, é consenso que a água — em suas materialidades, fluxos, estados e ontologias — tornou-se um dos principais dispositivos para compreender as transformações socioambientais que atravessam o século XXI. Nada no território está fora de seu domínio: bacias hidrográficas incluem tudo e todos, atravessando cidades, paisagens, infraestruturas, corpos e modos de vida. Não apenas enquanto recurso natural em risco, mas como força territorial, elemento político, paisagem sensível e infraestrutura vital que revela tanto o agravamento das desigualdades quanto a emergência de formas de cuidado, resistência e imaginação urbana.
Paralelamente, consolidam-se conceitos e abordagens que tensionam leituras tradicionais sobre a gestão hídrica e suas relações com o urbano, deslocando a centralidade de noções universalizantes de “natureza” para perspectivas que evidenciam conflitos, historicidades e ecologias plurais. Nesse âmbito, a ideia de cidades das águas ultrapassa uma compreensão meramente técnica ou ambiental: implica reconhecer mares, rios, canais, intermitentes, banhados, lagoas e lagunas como territórios de existência e disputa, cujas formas são simultaneamente moldadas por leitos, margens, ruas, edificações e práticas humanas, e também capazes de definir morfologias, fixar e deslocar vidas, atrair e repelir ocupações.
A crise socioambiental manifesta-se com intensidade no espaço urbano — entendido como produção social e campo de conflito — onde as vulnerabilidades hídricas convergem com dinâmicas de urbanização desigual, racismo ambiental, precarização habitacional e pressões do mercado imobiliário. Nesse contexto, processos de captura e instrumentalização das águas tornam-se evidentes: rios encarcerados, banhados aterrados, áreas de inundação transformadas em zonas de sacrifício, sobre as quais se depositam resíduos, venenos e desigualdades em nome de uma racionalidade econômica predatória. Dialeticamente, é também nessas margens, nas bordas d’água e nos interstícios das cidades que emergem alternativas, insurgências e práticas comunitárias capazes de reorientar modos de habitar e de projetar outros futuros urbanos.
Com morfologia efêmera e variável, as águas são pontos, linhas e áreas ao mesmo tempo; líquidas, sólidas ou gasosas conforme território, energia e contexto. Desafiam, assim, práticas de mapeamento, planejamento e projeto, exigindo atenção à escala, ao tempo, à sensibilidade e aos saberes implicados em sua representação e gestão. Nesse escopo, despontam iniciativas que questionam o paradigma hegemônico de gestão e significação das águas, propondo diferentes formas de convivência, cuidado e coexistência. Mas quais seriam as insurgências, invenções e contra-propostas capazes de transformar o modo como as cidades se relacionam com suas águas?
Com este dossiê temático, buscamos reunir pesquisas que analisam coletivos, movimentos e práticas que transformam a relação entre cidade e água, em chaves ecológicas, feministas, antirracistas, anti-heteronormativas e/ou decoloniais, apontando para formas alternativas de planejamento, cuidado territorial e reinvenção do urbano.
O dossiê busca reunir trabalhos que articulem as seguintes dimensões das cidades das águas:
- Planejamento Territorial e Bacias Hidrográficas: Análises sobre bacias e sub-bacias hidrográficas e suas relações com a produção, parcelamento e uso do solo nas cidades e municípios. Inclui o processo de planejamento urbano e regional, localidades rurais, e as relações de zoneamento com as dinâmicas hídricas. Contempla ainda o direito à cidade e à água no contexto das mudanças climáticas, bem como os processos de planejamento e representação das águas em levantamentos, planos e projetos de infraestrutura.
- Ecologias Lóticas, Lentinas e de Paisagem: Estudos sobre rios, riachos, córregos, canais e linhas de drenagem (águas lóticas), bem como banhados, mangues e áreas úmidas (águas lênticas) em seus contextos de morfologia, taxonomia e entorno. Foca na ecologia da paisagem, fragmentação e continuidade de territórios (urbanizados ou naturais), abordando a riqueza de espécimes animais e vegetais e as interfaces entre o espaço construído e o natural.
- Sistemas de Espaços Livres e Infraestrutura Verde: Relações das águas com sistemas de espaços abertos, unidades de conservação, parques, praças e jardins. Inclui a arborização urbana, vegetação viária, taxas de impermeabilização e microclimas. Aborda a preservação e o uso para práticas sociais, encontros, lazer, arte, cultura e atividades físicas.
- Saneamento, Drenagem e Soluções Baseadas na Natureza (SbN): Investigações sobre macro, meso e microdrenagem urbana ligadas à qualidade de vida e segurança ambiental. Ênfase em soluções baseadas na natureza (SbN) para mitigação de enchentes, manejo de águas pluviais e renaturalização de cursos d'água, privilegiando processos não estruturais e serviços ecossistêmicos.
- Justiça Socioambiental e Racismo Ambiental: Conflitos e disputas territoriais envolvendo a privatização, mercantilização ou contaminação das águas. Ações de enfrentamento ao racismo ambiental em territórios alagáveis, várzeas e periferias. Analisa processos de exclusão, segregação e as desigualdades socioespaciais refletidas na concentração ou rarefação da qualidade de vida e riqueza.
- Soberania Alimentar e Novas Ruralidades: Hortas urbanas, produção de alimentos e agricultura ecológica mediada pelas águas como alternativas ao mercado capitalista. Inclui práticas de cuidado e cultivo em beiras de rio e o surgimento de novas ruralidades e assentamentos humanos que busquem a proteção e o uso ecológico e coletivo das águas e biomas.
- Participação Popular, Movimentos Sociais e Saberes: Experiências de participação comunitária em todas as etapas do planejamento, gestão e execução de melhorias urbanas. Movimentos sociais em defesa do saneamento e do direito ao território. Valorização de saberes indígenas, quilombolas e ribeirinhos no enfrentamento das crises hídricas contemporâneas.
- Riscos, Desastres e Impactos Ambientais: Estudo de desastres naturais ou induzidos, enchentes, transbordamentos, deslizamentos e rompimento de estruturas. Aborda a poluição, lançamento de efluentes, saturação de subsistemas e a superação de estados degradados em sistemas hídricos urbanos.
Imaginação Hídrica, Cultura e Metodologias Emergentes: Expressões artísticas, audiovisuais e literárias que dialoguem com enchentes, secas e paisagens hídricas. Experiências de urbanismo temporário, ocupações efêmeras em zonas ribeirinhas e projetos que ativem a imaginação hídrica. Uso de metodologias como cartografias sociais, caminhografias ribeirinhas e etnografias das margens.
Serão bem-vindas diferentes abordagens teórico-metodológicas envolvidas com a temática, incluindo — sem se restringirem a — estudos de caso; pesquisas-ação, participantes, etnográficas e caminhográficas; análises qualiquantitativas; contribuições teóricas; ensaios visuais; cartografia física; projetos e processos criativos; traduções; e produções experimentais.
A submissão de trabalhos inéditos deverá ser feita pela plataforma da Revista PIXO (sistema a definir), com cadastro prévio como autora ou autor, entre 01 de janeiro e 31 de agosto de 2026.
A edição temática “CIDADES DAS ÁGUAS”, editada por Maurício Couto Polidori, Luana Pavan Detoni, Taís Beltrame dos Santos e Eduardo Rocha, aceitará artigos, ensaios, resenhas, entrevistas, processos e projetos, traduções e ensaios livres (parede).
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