A radicalidade dos afetos em Agostinho e o problema da dessexualizaçāo do amor
Resumo
Este artigo é uma introdução ao tema da radicalidade dos afetos em Agostinho, no qual se lança um olhar mais atento a uma questão específica: o problema da dessexualização do amor. Defendemos a hipótese de que em alguma medida este problema pode ser compreendido como uma cisão entre eros e ágape, termos empregados aqui, respectivamente, como se referindo à dimensão sexual do amor, e à dimensão caritativa. Se em Agostinho, à diferença das filosofias greco-romanas, o amor ganha uma dimensão inaudita fundamentando sua metafísica, ética e política, por outro lado, ele é acompanhado de uma ‘espiritualização’ em detrimento do corpo, da unidade do composto humano e da sua valorização. Seu platonismo e ascetismo, aliados à sua doutrina do pecado original, irão limitar o reconhecimento da importância do corpo e das suas experiências, onde a dimensão gozosa do cristianismo ‘espiritualiza-se’, simultaneamente à ruptura entre o corpo e a alma, ou o corpo e o espírito. Esta ruptura é acompanhada, em alguma medida, por uma cisão no interior do próprio amor: em outros termos, entre ágape e eros (amor espiritual/amor carnal). Em tempos de legítima crítica à filosofia canônica excludente e patriarcal, a filosofia agostiniana também nos deixa o convite ao reconhecimento da sua incompletude, das suas indeterminações, contradições e limites, nos impulsionando para uma tarefa que apenas a nós se impõe e nos compete contemporaneamente executar, em busca de alguma superação das fraturas e suturas inscritas na história, nas sociedades e nos nossos corpos.
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