Nietzsche e o sofrimento
Resumo
O presente artigo tem por objetivo esclarecer como, na filosofia de Nietzsche, a questão do sofrimento está no centro da pergunta pelo valor da vida e como certas “terapias” culturais (sobretudo a religião, mas também a metafísica, a arte romântica e, modernamente, a tecnociência) funcionam como narcóticos que aliviam a dor sem tocar sua causa, acabando por negar a própria vida. Para tanto, inicia-se por uma contraposição entre o “otimismo teórico” de Sócrates o “pessimismo da força” a partir de O nascimento da tragédia: os “sofredores por abundância” (dionisíacos) assumem o trágico e crescem com ele, enquanto os “sofredores por empobrecimento” buscam anestesia. Em seguida, mostra-se que, em Humano, demasiado humano, Nietzsche propõe uma “filosofia histórica” (psicológica e fisiológica) para desmascarar a necessidade metafísica que acabaria ignorando o sofrimento como parte da vida, dao que a religião, a moral e a estética romântica reinterpretem a dor, desviando o olhar da causa e produzindo dependência. A seguir, demonstraremos como, em Genealogia da moral, o autor reconstrói a “artimanha” pela qual religião e moral da compaixão ligam sofrimento e culpa, oferecendo consolo e sentido (ideal ascético) ao preço de uma doença mais profunda: a má-consciência, o ressentimento e, por fim, a “vontade de nada”. Mostraremos como a saída, então, passa pela inocência: reconhecer a irresponsabilidade e a necessidade naturais dos fenômenos, renaturalizando o humano e desfazendo a leitura culposa do padecer. Terminaremos por ampliar a crítica às promessas seculares de supressão da dor (hoje assumidas pela tecnociência), entendidas como novas formas de narcose que replicam a esperança religiosa de paraíso sem sofrimento. Em conclusão, recolocaremos a criação como resposta afirmativa diante do sofrimento, demostrando como “criar” é a grande libertação do sofrer. Extirpar a dor seria empobrecer a vida; enfrentá-la e torná-la conteúdo de criação é, ao contrário, condição de potência, grande saúde e autenticidade.
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