Caminhos Atlânticos
Memória, patrimônio e os africanos no tráfico de escravizados (séculos XVIII e XIX)
Resumo
O artigo analisa as formas de inscrição da memória da escravidão atlântica em dois marcos patrimoniais situados em lados distintos do oceano: o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, e a Porta do Não Retorno, em Uidá, atualmente no Benim. Parte-se do pressuposto de que a monumentalização da memória opera simultaneamente em registros materiais e imateriais, articulando dimensões históricas, políticas e sensoriais. A análise recorre, de um lado, ao Dossiê de Tombamento do Cais do Valongo, que consagra este sítio como patrimônio mundial e o inscreve em uma narrativa global da diáspora africana; de outro, dialoga com a interpretação proposta por Achille Zohoun acerca da Porta do Não Retorno, compreendida como dispositivo estético que atualiza emoções coletivas e reconfigura relações sociais no Benim contemporâneo. Ao aproximar esses dois aportes — o relatório institucional e a reflexão crítica — busca-se compreender como os lugares de memória da escravidão evocam um passado traumático e modulam as possibilidades de reconhecimento, reparação e pedagogia histórica. Argumenta-se que tais monumentos, longe de funcionarem apenas como vestígios ou cenários comemorativos, constituem-se em arenas de disputa, onde se entrelaçam experiências locais, políticas de Estado e diálogos transatlânticos.