A greve da fábrica de Semiannikov, em São Petersburgo, e a memória revolucionária
Resumo
O presente artigo analisa a greve ocorrida entre 23 de dezembro de 1894 e 4 de janeiro de 1895 na fábrica Semjannikov, em São Petersburgo, situando-a no contexto das crescentes tensões sociais e políticas do fim da Rússia czarista. O atraso no pagamento de salários, que desencadeou a mobilização operária, evidencia tanto a precariedade das condições de vida dos trabalhadores quanto a ausência de canais institucionais eficazes de negociação. A repressão violenta, conduzida por cossacos e bombeiros, ilustra o padrão autoritário de resposta estatal a movimentos sociais. Do ponto de vista historiográfico, o artigo busca compreender o episódio não apenas como um evento local de caráter pontual, mas como parte do processo de formação de uma consciência política revolucionária, que culminaria na Revolução de 1905. O envolvimento de Vladimir Ilitch Ulyanov (Lênin) e a produção de um panfleto direcionado aos grevistas marcam um ponto de inflexão na organização revolucionária, representando sua primeira tentativa de articular uma revolta espontânea a partir das demandas dos trabalhadores. Além disso, o estudo dedica-se à análise da construção da memória do episódio, examinando como monumentos, nome de ruas, quadros e memoriais erguidos posteriormente configuram o uso do patrimônio como instrumento de preservação e interpretação histórica. Por fim, o artigo apresenta documentos contemporâneos da greve e, pela primeira vez, uma tradução bilingue (em russo e português)do panfleto de Lênin, aprofundando a compreensão do evento e de seu legado.