Produzir, ver, esquecer:
a formação do imaginário urbano de Ouro Preto no século XX
Resumo
O artigo investiga a formação, circulação e estabilização do imaginário urbano de Ouro Preto entre 1938 e 1988, articulando políticas de preservação, práticas sociais e regimes de visibilidade. Argumenta-se que a cidade-patrimônio foi produzida por dispositivos institucionais – normativos, formais e fotográficos – que definiram o que deveria ser visto, reconhecido e consagrado como expressão legítima da cidade histórica. A fotografia institucional do IPHAN operou como tecnologia de enquadramento ao depurar presenças, reiterar composições e naturalizar uma paisagem harmônica e atemporal, convertida em matriz perceptiva amplamente difundida. À luz de Rancière, discute-se como esse processo instituiu uma partilha do sensível que excluiu práticas populares, conflitos de moradia e transformações urbanas; em diálogo com Annie Ernaux, examinam-se insurgências do olhar capazes de devolver densidade à experiência cotidiana. Ao integrar análises formais, visuais e sociais, o artigo demonstra que o imaginário urbano de Ouro Preto resulta de tensões entre a cidade representada e a cidade vivida, revelando o patrimônio como campo de disputa e a paisagem como operação política contínua.
Palavras-chave: patrimônio cultural; imaginário urbano; fotografia; Ouro Preto; regimes de visibilidade.