A Colonialidade Patrimonial
Resumo
O artigo examina a colonialidade institucional que permeia as políticas de preservação cultural no Brasil, argumentando que a formação do patrimônio nacional foi intrinsicamente ligada ao racismo e à negação da história. O texto rastreia como a criação do SPHAN em 1937 privilegiou a herança lusitana e católica, silenciando as contribuições e memórias traumáticas das populações indígenas e afro-brasileiras. O caso do Pelourinho em Salvador é usado para ilustrar essa dinâmica, onde um local de memória brutal foi tombado por seu valor arquitetônico colonial, levando à gentrificação e ao apagamento da população negra local. A análise se apoia em conceitos como necropolítica, racismo científico e a colonialidade do poder, explicando como o mito da democracia racial brasileira mascarou essas desigualdades históricas e institucionais. Além disso, o texto critica a influência do pensamento iluminista e eurocêntrico na definição do que constitui valor cultural e intelectual no país. Por fim, o autor propõe o conceito de Okaruã, um neologismo Tupi, como uma prática de desobediência epistêmica essencial para transformar as instituições e promover um patrimônio cultural decolonial e reparatório.