Escola e furor opiniático
da pseudoformação à desinformação
Resumo
Este artigo aborda o furor opiniático discente no interior do dispositivo escolar que toma o aluno como o protagonista da educação. Filiado ao campo da Educação e Psicanálise e derivado de uma pesquisa teórico-bibliográfica, o artigo propõe que a educação centrada no aluno — a qual marginaliza e até desautoriza o professor — é propensa a centrar o aluno em si mesmo e, assim, a promover em certa medida sua pseudoformação. Ademais, através de uma dialetização não toda entre as concepções de escola como “dispositivo periodístico” (Bondía, 2002) e como “dispositivo talk show” (Dufour, 2005), o artigo pretende mostrar que, particularmente nas últimas décadas, a escola centrada no aluno passou a supervalorizar a opinião discente em detrimento da transmissão de tradições éticas, estéticas e epistêmicas pelo docente. Tal supervalorização escolar da opinião, por seu turno, contribuiu para o surgimento de um autêntico furor de opinar por parte dos alunos, e o qual guarda certo isomorfismo com a cultura opiniática que se constata hoje na esfera pública. Conclui-se que o dispositivo escolar contemporâneo, ao supervalorizar a “doxa” discente, torna mais improvável ao aluno a passagem à “episteme” e, logo, a formulação de proposições fundadas na razão, fato o qual, em princípio, faz com que os alunos fiquem mais suscetíveis à desinformação.
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