Entre a Vitrine Espetacular e o Laboratório de Situações: espetáculo, decolonialidade e o futuro dos museus
Resumo
Este artigo investiga as interfaces possíveis entre a teoria do espetáculo de Guy Debord e as teorias decoloniais, tomando a noção de futuro como fio condutor. Argumenta-se que as duas tradições convergem no diagnóstico de que o futuro legitimado pela modernidade ocidental não é dado naturalmente, mas produzido como dispositivo de poder – seja pela lógica do espetáculo, seja pela colonialidade –, e divergem quanto ao horizonte que propõem, um futuro ainda inscrito em categorias modernas de revolução e sujeito universal, no primeiro caso; uma pluralidade de futuros descentrados e ancorados em saberes não europeus, no segundo. Essa articulação teórica, construída de modo crítico e seletivo, é então testada no campo museal, mostrado como espaço em que o museu pode operar simultaneamente como dispositivo espetacular, ao converter ciência, memória e cultura em imagem-mercadoria; e como dispositivo colonial, ao organizar acervos e narrativas segundo uma temporalidade hegemônica que relega povos colonizados à condição de passado. Como resposta a esse duplo fechamento, o artigo recupera a produção museológica brasileira – da teoria do "fato museal" à museologia social e à crítica decolonial da própria teoria museológica – para propor o museu como "laboratório de situações", espaço de invenção coletiva de futuros, e não vitrine de um passado espetacularizado. Práticas concretas de museus de território, curadorias compartilhadas e museus universitários em contexto de precariedade ilustram essa reformulação, sustentando a tese de que o futuro dos museus é um campo em disputa, e não um destino inevitável.
Downloads
Referências
BENJAMIN, Walter. Paris, capital do século XIX. Walter Benjamin, v. 2, p. 30-43, 1985.
BENNETT, Tony. The Birth of the Museum: History, Theory, Politics. London/New York: Routledge, 1995.
BRULON SOARES, Bruno. Descolonizar o pensamento museológico: reintegrando a matéria para repensar os museus. Anais. Museu Paulista: História e Cultura Material, v. 28, p. 1-30, 2020.
CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. São Paulo: Veneta, 2020.
CHAGAS, Mário. Há uma gota de sangue em cada museu: a ótica museológica de Mário de Andrade. Cadernos de Sociomuseologia, n. 13, 1999.
CHAGAS, Mário. A imaginação museal: museu, memória e poder em Gustavo Barroso, Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro. Rio de Janeiro/Brasília: Ministério da Cultura/Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), 2009.
CHAGAS, Mário. Museus e patrimônios: por uma poética e uma política decolonial. Revista do patrimônio histórico e artístico nacional, v. 35, p. 121-137, 2017.
CURVOA, Isabela S.; Amorim, Laís S. A espetacularização dos museus na pós-modernidade. In: ENCONTRO BRASILEIRO DE MUSEOLOGIA, 2017, Cidade do México. Anais [...]. Cidade do México: Instituto Mora, 2017.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
DUSSEL, Enrique. "Europa, modernidade e eurocentrismo". In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais – perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 24-32
ESCOBAR, Arturo. Designs for the Pluriverse: Radical Interdependence, Autonomy, and the Making of Worlds. Durham: Duke University Press, 2018.
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
MALDONADO-TORRES, Nelson. Sobre a colonialidade do ser: contribuições para o desenvolvimento de um conceito. 1. ed. [S. l.]: Via Verita, 2022.
MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: n-1 edições, 2018.
MIGNOLO, Walter D. Histórias locais/projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
O GLOBO. Sandra Benites se torna primeira curadora indígena de um museu de arte no Brasil. Rio de Janeiro, 17 dez. 2019.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 117-142.
RODRIGUES, João Pedro Peccini. O Museu Diários do Isolamento (MuDI/UFPel)
como museu-laboratório universitário socialmente orientado: práticas
experimentais, tensões institucionais e produção de memória em contexto de crise.
2026. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Museologia) – Instituto de
Ciências Humanas, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2026.
SARR, Felwine; SAVOY, Bénédicte. Rapport sur la restitution du patrimoine culturel africain: vers une nouvelle éthique relationnelle. Paris: Ministère de la Culture/Ministère de l'Europe et des Affaires Étrangères, 2018.
SOUZA, Daniel M. Viana de. Divulgação Científica em Museus e Centros de Ciência Interativos: a construção social de uma ciência-espetáculo. Porto Alegre: UFRGS, 2016. 435 f. Tese (Doutorado em Sociologia) – Programa de Pós-graduação em Sociologia, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2016.
VERGÈS, Françoise. Decolonizar o museu: programa de desordem absoluta. Ubu Editora, 2023.
RÚSSIO, Waldisa. Conceito de cultura e sua inter-relação com o patrimônio cultural e a preservação. Cadernos Museológicos, Rio de Janeiro: Iphan – Pró-Memória, n. 3, p. 7-12, 1990.
WALSH, Catherine. Interculturalidade crítica e Pedagogia Decolonial: in-surgir, re-existir e re-viver. In: CANDAU, Vera Maria (Org.). Educação Intercultural na América Latina: entre concepções, tensões e propostas. Rio de Janeiro: 7Letras, 2009. p. 12-42.
Copyright (c) 2026 Expressa Extensão

This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.
A revista se reserva o direito de efetuar nos originais alterações de ordem normativa, ortográfica e gramatical, com vistas a manter o padrão culto da língua, respeitando, porém, o estilo dos autores. As provas finais não serão enviadas aos autores. O Conselho Editorial não se responsabiliza por opiniões emitidas pelos autores dos trabalhos publicados. Os trabalhos aceitos para publicação passam a ser de propriedade da Expressa Extensão, não podendo, o autor, reclamar, em qualquer época ou sob qualquer pretexto,remuneração ou indenização pela publicação. A reimpressão, total ou parcial, dos trabalhos publicados é sujeita à autorização expressa da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura. OBS. Cabe(m) ao(s) autor(es) as devidas autorizações de uso de imagens com direito autoral protegido (Lei nº 9610, de 19 de fevereiro de 1998), que se realizará com o aceite no ato do preenchimento da ficha de inscrição via web.
Este obra está licenciado com uma Licença Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International.
