O início da arqueologia histórico-cultural moderna e os estudos de indústria lítica sambaquiana (1930 – 1950)
Resumo
Este artigo dá continuidade à apresentação do histórico das pesquisas sobre os grupos sambaquianos e suas indústrias líticas, com ênfase nos paradigmas que marcaram cada período da investigação arqueológica nesse campo. Trata-se da terceira publicação de uma série dedicada ao tema. Neste texto, abordamos o desenvolvimento da arqueologia histórico-cultural moderna, no recorte temporal entre o Estado Novo em 1930 até a década anterior a Ditadura Militar, 1950. Esse intervalo é caracterizado pelo amadurecimento da abordagem histórico-cultural, com a consolidação de objetivos científicos mais bem delineados e menos subordinados a interesses ideológicos relacionados à construção de uma identidade nacional. Observa-se, nesse contexto, um avanço significativo na caracterização do passado arqueológico brasileiro em termos geográficos, cronológicos e culturais. No que tange às análises das indústrias líticas, verifica-se uma progressiva superação das tipologias morfológicas estritas, com a adoção de classificações influenciadas pela tradição arqueológica francesa, destacando-se o foco nas cadeias operatórias e nos aspectos tecnológicos dos conjuntos artefatuais. O período é ainda marcado pela transição de uma epistemologia evolucionista unilinear para um evolucionismo multilinear de cunho particularista, sendo as interpretações das indústrias líticas profundamente influenciadas pelo estruturalismo. Registra-se, igualmente, um movimento em direção à institucionalização da disciplina, com iniciativas voltadas à profissionalização dos pesquisadores, à preservação dos sítios arqueológicos e à realização de missões científicas.
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