O sujeito e a instituição policial militar: reflexões sobre militarização, sofrimento e trauma
Resumo
A Polícia Militar, tal qual é conhecida hoje, foi criada durante a ditadura que assolou o Brasil. Este modelo sobreviveu à redemocratização do país e constitui um entulho autoritário, uma demonstração de que a ditadura ainda se faz presente em nossa realidade. A militarização da polícia se solidifica. Com o intuito de se tornarem policiais militares, pessoas oriundas dos mais variados estratos da nossa sociedade, ao ingressarem na Instituição, se deparam com uma realidade de atividades humilhantes e desgastantes, onde há um trauma, muitas vezes não elaborado – a negação da dor é um elemento presente, de forma preponderante, neste processo. Estas pessoas são submetidas ao processo de mortificação do eu, com o intuito da criação de um novo ser, dotado de características especiais, insensível à dor e ao sofrimento, aptos a enfrentar todas as adversidades inerentes ao exercício da profissão. Tal formação, visando constituir a identidade do policial militar como um guerreiro imbatível, é baseada em verdadeiros ritos de passagem onde a humilhação e a submissão a atos de violência são elementos importantes. Este artigo, através de relatos de policiais militares que foram submetidos a estas práticas, desvela histórias de lugares traumáticos e proporciona aportes de conhecimento relevantes para refletir, com base na psicologia de grupo, sobre uma realidade onde o sofrimento, embora não admitido, faz-se presente produzindo danos à saúde destes profissionais e, por que não, à nossa democracia.
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