Museus Memoriais. Lembranças do Passado e Desafios da Memória no Presente - Análise do Memorial da Resistência
Resumo
O final do século XX e o início do XXI foram marcados por um boom da memória, impulsionados por processos de justiça transicional e pela necessidade de enfrentar passados traumáticos. As demandas por reparação, a partir do Holocausto, consolidaram um modelo global de memorialização, com a instalação de museus e memoriais a partir da perspectiva de um dever de memória que não apenas recordam as vítimas, mas também educam sobre os perigos do totalitarismo e os princípios dos direitos humanos. Na América Latina, o enfrentamento das ditaduras militares resultou na conversão de antigos centros de repressão em museus memoriais, como o “Museo Sitio de Memoria – ESMA” na Argentina, “Londres 38 – Espacio de Memorias” no Chile e o “Memorial da Resistência” (MRSP) no Brasil, refletindo diferentes graus de reconhecimento e justiça. A partir do estudo de caso do “Memorial da Resistência”, este artigo analisa o surgimento desses espaços como novas formas de comemoração que refletem a necessidade emergente de abordar a violência histórica e as violações dos direitos humanos. O estudo se concentra em duas questões centrais presentes no circuito expográfico do MRSP. A primeira trata da incorporação do tempo presente, permitindo que o memorial estabeleça conexões entre a violência de Estado do passado e problemáticas contemporâneas, como violações de direitos humanos e práticas autoritárias. A segunda questão trata da ampliação das narrativas de resistência, incluindo grupos historicamente marginalizados, como indígenas, quilombolas, movimentos de periferia e ativistas LGBTQIA+, cujas lutas foram silenciadas tanto durante as ditaduras quanto no período pós-ditatorial. O estudo também discute como exposições temporárias têm tensionado e ampliado as narrativas da exposição permanente, embora persistam desafios de representatividade efetiva e riscos de redução das vozes subalternizadas a 'apêndices narrativos' (Mbembe, 2018). Assim, busca-se compreender como a memória da repressão segue sendo disputada e ressignificada no Brasil, e de que maneira o Memorial da Resistência se posiciona nesse cenário, contribuindo para a construção de políticas de memória mais inclusivas e dinâmicas.
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