A construção social dos mortos em casos de desaparecimento - a materialidade além do corpo

  • Aline Feitoza de Oliveira ervidora do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (CAAF/Unifesp) e doutoranda do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo
  • Marilia Oliveira Calazans écnica do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (CAAF/Unifesp) e doutoranda do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo,
  • Marina Di Giusto Pesquisadora pós-doutoranda no Géosciences Environnement Toulouse, Université de Toulouse
  • Maria Ana Correia Junior Researcher no Interdisciplinary Center for Archaeology and the Evolution of Human Behaviour (ICArEHB) da Universidade do Algarve, Portugal
  • Candela Martinez Arqueóloga contratada pela Universidade de Las Palmas de Gran Canaria, España,
  • Ana Paula Moreli Tauhyl Servidora do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e mestre em Arqueologia pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo
  • Mariana Inglez dos Reis Pós-doutoranda do Instituto de Biociencias da Universidade de São Paulo
  • Talita Máximo Carreira Ribeiro Pesquisadora do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo
  • Marina da Silva Gratão Ex-consultora do Grupo de Trabalho Perus
  • Márcia Lika Hattori Arqueóloga e pesquisadora pós- doutoranda no Instituto de Ciencias del Patrimonio. Consejo Superior de Investigaciones Científicas INCIPIT-CSIC
Palavras-chave: arqueologia forense, cemitério, violação direitos humanos, memória

Resumo

Observar como a cultura material associada à morte e ao enterramento é registrada, armazenada e organizada em contextos de violações de direitos humanos permite entender como os artefatos — e o tratamento dado a eles — refletem construções sociais presentes nos processos de identificação, reparação e elaboração de memórias coletivas. Neste artigo, discutimos diferentes contextos em que teorias e métodos da Arqueologia contribuíram para a recuperação e identificação de pessoas desaparecidas, bem como para a construção e preservação da memória de grupos impactados por violências no passado recente. Por fim, refletimos sobre o potencial da cultura material em processos mais amplos de justiça, reparação e memória no Brasil — um campo ainda incipiente, especialmente no que se refere ao uso da Antropologia e da Arqueologia Forense em contextos de violência.

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Biografia do Autor

Maria Ana Correia, Junior Researcher no Interdisciplinary Center for Archaeology and the Evolution of Human Behaviour (ICArEHB) da Universidade do Algarve, Portugal

A participação desta autora neste trabalho foi financiado através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do apoio 2022.03020.CEECIND/CP1731/CT0006 (DOI: 0.54499/2022.03020.CEECIND/CP1731/CT0006)

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Publicado
2025-12-15
Como Citar
FEITOZA DE OLIVEIRA, A., Oliveira Calazans, M., Di Giusto, M., Correia, M. A., Martinez, C., Moreli Tauhyl, A. P., Inglez dos Reis, M., Máximo Carreira Ribeiro, T., da Silva Gratão, M., & Lika Hattori, M. (2025). A construção social dos mortos em casos de desaparecimento - a materialidade além do corpo. Cadernos Do LEPAARQ (UFPEL), 22(44), 173-191. https://doi.org/10.15210/lepaarq.v22i44.29509
Seção
Dossiê Lugares de Histórias Traumáticas