Entre o real e o engajamento
a crise da mediação na era algorítmica
Resumo
Este artigo analisa a transformação da linguagem em contextos digitais marcados pela intensificação afetiva e pela desarticulação da mediação simbólica. Propõe-se o conceito de “necrose do signo” para descrever não a interrupção da semiose nem a dissolução da referência ao real, mas a degeneração de sua função mediadora em circuitos autorreferentes de afecção, repetição e engajamento algorítmico. A partir da teoria da crença de Charles S. Peirce, examinam-se os modos degenerados de fixação da crença: tenacidade, autoridade e a priori, em ambientes nos quais a Primeiridade sobrepõe-se à Terceiridade. Discursos performáticos de influenciadores e líderes religiosos são analisados como sintomas dessa degeneração semiótica, na medida em que mobilizam afetos, crenças prévias e formas de pertencimento coletivo para reduzir, sem eliminar, a abertura do signo à alteridade do objeto dinâmico. Argumenta-se que tais discursos canalizam afetos como o ódio e o ressentimento, convertendo o signo em instrumento de clausura simbólica. Defende-se, por fim, uma reaproximação do pragmatismo peirciano como ética da inquirição, capaz de reorientar a semiose para sua função mediadora e de restituir à linguagem sua dimensão pública de escuta, investigação e convivência.
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