KUNUMI POTY VERÁ. A (im)permanência do massacre de Caarapó
Resumo
As questões fundiárias extremamente violentas no estado de Mato Grosso do Sul estão diretamente vinculadas à estratégia neocolonial de sobreposição do agronegócio exportador aos territórios tradicionais indígenas. O estado congrega em seu território nove povos – Terena, Guarani, Kaiowá, Ofaié, Kadiwéu, Guató, Kinikinaw, Atikum e Kamba – que, cada um a sua maneira, enfrentam as graves consequências da usurpação territorial. Especificamente os Guarani – Ñandeva e Mbya – e Kaiowá, ocupam as regiões do sul e sudoeste, onde no passado a exploração da erva-mate e atualmente a sojicultura e a expansão da especulação imobiliária lhes retira o território tradicional de vida. Na cidade de Caarapó, em 2016, fazendeiros e jagunços fortemente armados assassinaram o agente de saúde indígena Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, de 23 anos, e deixaram outros seis indígenas feridos por armas de fogo, em uma ação extremamente violenta, que envolveu inclusive o uso de retroescavadeiras e o incêndio intencional de pertences dos indígenas – moradias, ferramentas e utensílios. Uma vez que as áreas em litígio não são demarcadas, denominadas como retomadas, sua constante mudança é uma característica marcante, que impede a realização de trabalhos tradicionais de arqueologia e antropologia forense, devido aos riscos a que são expostos tanto os Guarani e Kaiowá, quanto os próprios profissionais e agentes estatais. O chamado Massacre de Caarapó foi um acontecimento extremamente impactante e simbólico, que há quase uma década mobiliza a memória e reitera a resistência nas retomadas territoriais, porém, a considerar que se passa em um espaço em constante transformação, sua própria caracterização e significação arqueológica é cercada de desafios. A proposta para a pesquisa consiste em análise em fontes documentais, entrevistas a interlocutores e visitas à tekoha Kunumi Poty Verá, local este redesignado após a morte de Clodiodi, como forma de homenagem póstuma, a fim de caracterizar esse local histórico, marcado pela violência e pelo legado traumático suportado pela comunidade.
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Referências
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