Arquivos - Página 2

  • v. 10 (2004)

    Este é um número especial de História em Revista, que contém os Anais do VII Encontro Estadual de História da Associação Nacional de História, ANPUH, núcleo Rio Grande do Sul, ocorrido de 19 a 23 de julho de 2004, na UFPel e que congregou um expressivo número de pesquisadores e estudantes de história.

    O evento teve por título “História, memória e testemunho”, mas em sua programação, muitos outros assuntos e temas foram discutidos, como o comprova o próprio conjunto dos textos que agora são disponibilizados por escrito. A diretoria da ANPUH priorizou, na conferência de abertura e em um dos painéis, o tema do encontro, enquanto outro dava conta da necessária reavaliação do golpe de 64 em seu quadragésimo aniversário. Quanto as mesas redondas, elas foram propostas e organizadas pelos vários GTs em funcionamento no estado.

    Aqui se encontram publicados os textos referentes aos painéis e mesas redondas que aconteceram durante o evento. Alguns palestrantes decidiram por não disponibilizar seus textos para publicação. Mesmo assim, sobrou suficiente material e de qualidade, para montar este número que agora vocês têm em mãos. Entretanto, como algumas mesas ou painéis ficaram sem a integra das contribuições apresentadas, optamos por colocar os artigos por ordem da apresentação no próprio encontro.

    O fato deste número da revista representar os anais do encontro, de certa forma trouxe modificações em sua padronização interna, pois esta edição não contempla seções normais, como instrumentos de trabalho e resenhas, além de não ter mantido a exigência de resumos/abstracts, devido à própria diversidade das contribuições apresentadas. Essa mesma variedade fica evidente nos artigos, com alguns mantendo uma liberdade maior, própria de “papers” apresentados oralmente e outros seguindo as regras acadêmicas formais, alguns deles baseados em trabalhos acadêmicos de seus autores.

    Entretanto, no seu conjunto, eles refletem boa parte do que se constituiu no evento, salutar e renovada experiência de encontro de historiadores oriundos de realidades diversas, tanto em termos de locais de ensino, quanto das metodologias de pesquisa, sem falar na multiplicidade de objetos e temas de pesquisa. Essa diversidade é por nós saudada com orgulho e estará presente em cada um dos textos que fazem parte deste número especial de nossa revista.

    Finalmente, temos que lembrar que este número também apresenta diferenças em sua editoria, que é conjunta, representando um momento de transição. A acumulação de tarefas, necessária em departamentos pequenos para a qualificação de seus quadros, finalmente foi encerrada e torna-se possível uma renovação editorial, representada na pessoa da professora Lorena Almeida Gill, que já está encaminhando a próxima edição comemorativa dos 10 anos de História em Revista.

    Beatriz Ana Loner

  • Caminhos da história
    v. 9 (2003)

    História em Revista, em seu 9º número, se dedica a incursionar pelos caminhos da história, tanto revisitando fontes e temas, quanto detendo-se na análise e teorização do conhecimento histórico e historiográfico atual.

    Cada novo momento propõe novos desafios, mas também traz perigos à ciência histórica e não são poucos aqueles que prevêem seu fim como ciência e sua substituição por formas variadas do fazer literário. Entretanto, a enorme vitalidade da disciplina, sua incrível flexibilidade quanto a temas e sua abertura a novos enfoques, deixam claro que ela é, das ciências humanas, a que possui maior vitalidade e possibilidade de, aceitando as novas contribuições, continuar em seu papel básico, que é conhecer e interpretar o passado humano.

    Os artigos incluídos nesse número, não tem uma resposta comum a essa questão, e muitos sequer se preocupam explicitamente com ela, mas trazem, individualmente, propostas diferenciadas de como lidar com os novos modos de fazer história.

    Com relação à teoria e historiografia, temos o artigo de Silvia Petersen sobre a historiografia brasileira contemporânea, que, embora seja um trabalho feito para ser apresentado a um público estrangeiro, não perde nenhuma das qualidades necessárias a uma boa análise das influências, temas e tendências em voga atualmente no Brasil. Quanto ao artigo de Fernando Nicolazzi procura esmiuçar o pensamento de Paul Ricoeur com relação ao discurso historiográfico.

    Quanto à forma de trabalho com as fontes, um instigante exemplo de utilização da poesia como fonte para a análise histórica é apresentado pelo estudo de Carlos Rangel, que versa sobre dois poetas de Rivera, no Uruguai, fronteira com o Brasil. Através de sua pesquisa, que incluiu a manipulação de outras fontes tradicionais, como documentos escritos e dados estatísticos, Rangel conseguiu explorar de forma inovadora a representação identitária dessa comunidade fronteiriça através dos versos de Olintho Simões e Agustín Bisio, bem como suas relações com o universo cultural e social brasileiro, que transparece nos próprios versos estudados.

    Maria Cecília Pilla contextualiza o surgimento e evolução da noção de civilidade na sociedade européia, utilizando-se dos manuais de boas maneiras, que procuravam orientar as relações entre iguais nas classes superiores. Seu trabalho consegue nos apresentar uma interessante visão do desenvolvimento da noção de civilidade e boas maneiras na sociedade ocidental européia e na brasileira.

    Mas, mesmo fontes já consagradas, como são as correspondências epistolares, ainda se constituem em campos abertos para a atuação histórica, como o comprova o artigo de Paulo Ricardo Pezat, baseado na correspondência trocada entre um membro da Igreja Positivista do Brasil, médico e militar, durante a Revolução Federalista, com lideranças positivistas do Rio de Janeiro, na qual se mesclam as visões do médico sobre a barbárie da guerra, as convicções do positivista sobre a difusão de sua doutrina e as simpatias do militar republicano para com os castilhistas durante a revolta. Embora bem explorada pelo autor, o próprio artigo deixa entrever vários outros usos dessa correspondência, especialmente em relação ao cotidiano e as relações familiares estremecidas pela guerra.

    Ana Teresa Gonçalves traz, baseada em grande erudição, uma reflexão sobre a forma como os Severo, em Roma, utilizaram-se de várias estratégias, entre elas a representação de imagens, na formação de apoios entre alguns segmentos sociais, lidando com a evolução dessa representação ao longo das etapas da vida de Septimio Severo.

    Por último, temos o artigo de uma recém egressa do curso de história da UFPel, Beatriz Zechlinski, sobre as relações entre literatura e história, tema de sua monografia de conclusão de curso. Até aqui, a revista sempre procurou oportunizar a publicação dos resultados dos trabalhos finais dos alunos, como forma de valorização do seu trabalho. Este artigo foi escolhido, entre outros três, por uma comissão de professores do curso.
  • v. 8 (2002)

    O volume 8 de História em Revista traz algumas modi-ficações na estruturação interna da revista, resultado de trans-formações do próprio Núcleo de Documentação Histórica, consolidando-se como um núcleo de pesquisadores mais ligados aos temas de História Social. Entretanto, a edição da Revista continuará contemplando, tanto em sua Comissão, como no Conselho Editorial, um espectro mais amplo de historiadores e, em suas páginas, continuará fiel aos seus objetivos iniciais, de promover o desenvolvimento da pesquisa e divulgar a produção historiográfica ou de áreas afins, com ênfase na região sul do nosso Estado.

                Dentro destes eixos, este número traz artigos que analisam aspectos da vida social e cultural da cidade no século XIX e/ou sua relação com a literatura ali produzida. Há, ainda, um alentado trabalho sobre o contrabando nas fronteiras do Estado gaúcho. Embora reconheçamos que alguns artigos extrapolam os limites de páginas estabelecidos pela própria Revista, entendemos também que esse tipo de limite serve como recomendações à escrita e não devem ser obstáculos à publicação de textos relevantes.

                Também fazem parte artigos sobre assuntos de pertinência nacional, como é o caso da análise sobre o Código Eleitoral de 1932 e as formas da representação classista na Constituição de 1934, ou internacional, como o trabalho sobre aborto e contracepção na Grécia Antiga. Ainda publica-se um artigo, elaborado inicialmente como trabalho de conclusão do curso de História, de discussão historiográfica sobre a Guerra do Paraguai. Por fim, uma resenha sobre a obra de François Hartog, historiador francês da atualidade, dá a exata dimensão da orientação plural da Revista.

                A seção Instrumentos de Trabalho apresenta-se com maior espaço neste volume, consubstanciando-se em três textos repre-sentativos das preocupações com o tema. Assim, temos um trabalho sobre a colonização irlandesa na zona sul, a análise e descrição da Liga Operária de Uberabinha-MG e um depoimento analítico sobre as dificuldades de trabalho com acervos históricos.

                Desejamos a todos uma boa leitura.

     

    Beatriz Ana Loner

  • Etnias
    v. 5 (1999)
  • v. 4 (1998)

    Publicação do Núcleo de Documentação Histórica da UFPel

  • Escravidão no Extremo Sul do Brasil
    v. 3 (1997)

    No terceiro número de História em Revista, publicação do Núcleo de Documentação Histórica da UFPel, buscamos fortalecê-la. Mantendo-a como um espaço que facilita a veiculação da pesquisa histórica produzida na Universidade Federal de Pelotas, procuramos também afirmá-la como um periódico na área de história em âmbito nacional, contando, assim, com a contribuição de destacados pesquisadores, como a historiadora Helgal I. L. Piccolo, que gentilmente ofereceu seu artigo sobre a escravidão em Pelotas, desejando fosse publicado em uma revista científica pelotense.

    A História em Revista se consolida ao buscar constituir um valioso instrumento de pesquisa e informação. A partir desse volume publicamos dossiês sobre temas específicos. Por esse meio, criamos um importante instrumento para pesquisa, estudo e ensino de História, por ensejar a leitura de variadas abordagens sobre uma mesma problemática. No presente número, temos um dossiê sobre a escravidão na zona sul do Rio Grande do Sul; para tanto, privelegiamos a publicação de artigos de autores da própria região, a fim de divulgar a pesquisa aqui realizada sobre o assunto. A temática é tratada sob diferentes enfoques: assuntos variados; metodologias e técnicas distintas; fontes históricas diversas.

    Ademais, damos continuidade ao objetivo, estabelecido na elaboração do segundo número, de publicar documentação histórica de valor, inédita ou veiculada em obras antigas, raras e esgotadas, ou mesmo na imprensa de épocas muito recuadas. Assim, se no número anterior publicamos a entrevista com o ex-dirigente comunista Otávio Brandão, nesse trazemos uma tabela sobre a escravidão em Pelotas no século XIX, publicada no Correio Mercantil de 23.08.1884, bem como um conto do escritor pelotense Alberto Coelho da Cunha, que foi publicado em 1872, no Partenon Literário, quando tinha ainda seus 17 anos de idade. Nesse conto, o adolescente descreve, com as tintas da literatura, o cotidiano do escravo da charqueada, que conhecera por meio de sua vivência familiar.

    Com uma visão ampla da interação da História com as demais Ciências Humanas, trazemos um artigo de Antropologia, que trata, com originalidade, de um tema de absoluta relevância para os dias de hoje, qual seja, a violência.

    Enfim, procurando incentivar os futuros professores e historiadores que formamos em nosso Curso de História, insistimos em manter uma seção dedicada à publicação de trabalhos de conclusão de curso que se destaquem por seus méritos científicos e intelectuais, aqui representados pelo artigo sobre a gripe espanhola.

    Fábio Vergara Cerqueira

    Editor

  • v. 2 (1996)

    O Núcleo de Documentação Histórica da UFPel foi criado em março de 1990 tendo como propostas iniciais resgatar e conservar documentos relativos à própria instituição, bem como desenvolver acervo que tivesse como temática organizadora, o movimento operário na cidade de Pelotas. Passados seis anos de sua fundação, o Núcleo ampliou sua abrangência para outras linhas de investigação, contando atualmente com cinco pesquisadores vinculados ao Departamento de História e Antropologia, dois técnico-administrativos e alunos bolsistas, cujas pesquisas tematizam sobre o quotidiano, movimentos sociais, imigração e gênero.

    A Trajetória que vem trilhando o Núcleo de Documentação nessa sua recente existência mostra sua disposição em abrir-se aos mais variados objetos de investigação, às mais diferentes formas de abordagem do real, concebendo em seu interior profissionais de áreas diversas como historiadores e antropólogos num diálogo extremamente profícuo e contemporâneo que adquire visibilidade na revista que ora trazemos ao público

  • v. 1 (1994)

    O Núcleo de Documentação Histórica da UFPel é um órgão de extensão, em caráter permanente, vinculado à Pró-Reitoria de Extensão, ao Institudo de Ciências Humanas e ao Instituto de Sociologia e Política. 

    Nasceu em março de 1990, dentro de uma proposta com duas vertentes: a primeira seria resgatar e conservar documentos relaticos à história da Universidade, colocando-os à disposição para o uso de eventuais interessados. A segunda, desenvolver um trabalho junto ao movimento operário na cidade e subsidiar estudos sobre esta temática. 

    Decorridos três anos, o Núcleo conseguiu consolidar-se, enquanto órgão de extensão, ampliando seu acervo e estruturando-se de modo a que o público tenha acesso a este. Mas conseguimos mais: pouco a pouco, o Núcleo aglutina um grupo de pesquisadores com interesse e dedicação suficiente para pôr em andamento vários projetos envolvendo alunos e ampliando as linhas de pesquisa que, agora, além da história da UFPel e do movimento operário, abrangem pesquisas sobre história de Pelotas e movimentos populares em geral. 

    Um pouco do resultado deste trabalho está expresso nas páginas deste Revista que, acredito, marca um momento importante na vida do Núcleo: terminando o tempo de organização, agora é possível partir para a ação, ou seja, é o momento em que nós, já constituídos e estruturados, ampliado nosso corpo de pesquisadores/colaboradores, podemos desenvolver projetos com maior alcance e eficácia. 

    A partir desse primeiro exemplar da "História em Revista", composto por artigos de professores ligados ao NDH UFPel, nossa revista terá publicações semestrais, tendo como projeto editorial criar um espaço de discussão e atualização de temas históricos, tanto de história recente e contemporânea como de períodos recuados, possibilitando, à comunidade de pesquisadores, professores e interessados pelo estudo de história, o acesso a uma publicação em que poderá tomar contato tanto com artigos de pesquisadores da região como de cientistas de nível nacional e internacional. 

    Gostaríamos de lembrar o apoio dado à formação do Núcleo de Documentação Histórica da UFPel pela Reitoria, gestão Amílcar Gigante (1989 a 1992), pela Direção do Intituto de Ciências Humanas, na do professor José Rubens Acevedo. Do mesmo modo, manifestamos nossos agradecimentos à atual Reitoria, gestão César Borges. 

     

    Profª Beatriz Ana Loner 

  • História Pública: caminhos para a democratização do conhecimento já disponível!
    v. 31 n. 2 (2026)

    A História Pública como uma possibilidade para democratizar o conhecimento

    Public History as a Possibility for Democratizing Knowledge

     

    O Núcleo de Documentação Histórica (NDH/UFPel) foi construído no ano de 1990 pela professora Beatriz Loner e seu surgimento se vincula à história e a memória institucional. Ocorre que em 1989 havia sido eleito e assumido a reitoria o médico Amilcar Gigante, que tinha uma grande preocupação em organizar aspectos sobre a história e a memória da UFPel e, por esse motivo, incentivou Beatriz a constituir um centro de documentação que pudesse reunir documentos e fotografias dispersas em diferentes unidades, faculdades e institutos, o que resultou em um projeto de extensão vigente até hoje.

    Desde aquele período foram feitos contatos com diretores de unidade e coordenadores de curso com a intenção de falar sobre o projeto do NDH, ao mesmo tempo em que havia o oferecimento para que este novo espaço pudesse salvaguardar documentos, na maior parte das vezes, mal organizados e acondicionados de forma insatisfatória tendo em vista a falta de pessoal especializado na área, na instituição.

    Além do recolhimento de materiais diversos, quando havia a acolhida, por parte dos gestores, Beatriz realizava entrevistas, através da modalidade de história oral, especialmente com professores e professoras considerados pioneiros e estas narrativas se encontram, atualmente, no Laboratório de História Oral, vinculado ao NDH, o qual conta com mais de 500 entrevistas, várias delas relacionadas à UFPel e outras vinculadas a diferentes projetos de pesquisas.

    O resultado deste trabalho inicial, realizado nos primeiros anos da década de 1990, foi publicizado através de um livro, publicado em 1999, intitulado “UFPel: 30 anos”[1], organizado pelo professor Mario Osorio Magalhães, que contou com um capítulo escrito pela Beatriz Loner, que levou o nome de “UFPel: um breve histórico”.

    Com o tempo, o perfil do acervo do NDH mudou especialmente ao receber, no ano de 2003, mais de 600 mil fichas de qualificação do Estado do RS, que estavam com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), as quais eram preenchidas pelos trabalhadores e trabalhadoras, quando da feitura da carteira profissional e, também, quando acolheu, em regime de comodato, do Memorial da Justiça do Trabalho, da 4ª região, 93.845 processos trabalhistas físicos, com marco temporal entre 1936 e 1998.

    Os processos trabalhistas são procurados não só por pesquisadores de cursos diversos: História, Direito, Turismo, Ciências Sociais, mas também por pessoas da comunidade externa, que buscam os documentos a partir de três intenções principais: provar vínculo empregatício para obter a aposentadoria; relatar situações de insalubridade, quando estavam atuando e obter prova para a obtenção da dupla cidadania.

    Mais recentemente, no entanto, a preocupação com a história institucional começou a se fazer presente, de uma forma mais densa, já que em plena pandemia de Covid-19 membros do NDH foram procurados para verificar as condições de um acervo encontrado em uma das salas da Faculdade de Medicina, o qual era composto por documentos de sua fundação como uma faculdade privada e laica, em 1963. Após este contato inicial os materiais foram recolhidos, higienizados e digitalizados, especialmente tendo em vista as dificuldades existentes para que pesquisadores tivessem acessos a documentos naquele período, de isolamento social, a bibliotecas e museus, os quais estavam fechados.

    Decorrente deste trabalho com a Medicina foi publicado uma obra intitulada: Uma casa chamada Leiga”, de autoria de Lorena Almeida Gill e novos trabalhos foram sendo feitos como um que abordou a constituição da Faculdade de Enfermagem e Obstetrícia, no ano de 1977, por um grupo inicial de seis mulheres vindas da Bahia, sendo cinco delas negras e, também, uma publicação que se relacionou a mesma graduação de Medicina, mas com a abordagem de um Departamento em especial, o de Medicina Social, o qual estabeleceu políticas públicas de saúde relacionadas ao preconizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), bem antes deste ser implementado em 1988. Todos estes textos estão acessíveis no site do NDH[2].

    A partir daí a estrutura de funcionamento do centro de documentação mudou através de diferentes medidas que foram sendo tomadas como a digitalização de praticamente todos os documentos que se tem acesso, como, por exemplo, os processos trabalhistas, uma vez que antes era feito apenas um resumo sobre cada um deles. Foi se construindo, com o tempo, a percepção de uma necessidade maior com a democratização do conhecimento produzido em uma Universidade pública, tanto para proporcionar um maior acesso quanto tendo em vista os desastres climáticos a cada dia mais presentes no mundo.

    Um dos livros feitos no NDH, o Dicionário de História de Pelotas, reforçou essa perspectiva. Depois de lançado de forma física, em duas edições, as quais estão esgotadas, houve a publicação em formato e-book e essa possui mais de 153 mil visualizações sendo utilizada, especialmente por professores e jornalistas, como uma fonte bastante confiável para contar a história da cidade.

    Um outro episódio foi impactante para a equipe, já que em 2019, houve a notícia de que o rapper cearense, Matuê, iria se apresentar em Pelotas, em uma antiga charqueada, a chamada Costa do Abolengo e tal fato promoveu debates nas redes sociais sobre se o local era adequado para se realizar atos comemorativos. Ocorre que um canal da internet, o Quadro em Branco, construiu um pequeno vídeo dizendo por qual motivo o cantor não deveria fazer uma apresentação em um lugar marcado pelo sofrimento e pela morte de escravizados e para embasar seus argumentos usou um artigo escrito por pesquisadores do NDH, Beatriz Loner; Lorena Gill e Micaele Scheer, intitulado “Enfermidade e morte: Os escravos na cidade de Pelotas, 1870-1880”. O vídeo, que ainda pode ser acessado pelo YouTube, teve cerca de 274 mil visualizações, à época, fazendo com que a equipe do artista desmarcasse o show na cidade.

    Bem, o fato é que especialmente após dois eventos históricos importantes: a pandemia de Covid-19 e a enchente histórica vivida pelo Estado do RS, em 2024, se percebeu como seria importante garantir a preservação de documentos, bem como a democratização do que é produzido em uma universidade pública. Não se pode esquecer que relacionado ao desastre climático de 2024, cerca de 1.090 milhão de processos trabalhistas ficou debaixo d’água durante quase um mês em Porto Alegre. Uma parte considerável desse material faz parte do Programa Memória do Mundo, da UNESCO.

    De toda a maneira, a História pública sempre foi uma preocupação do NDH, especialmente a partir da perspectiva de uma construção de saberes que envolva as pessoas não como objetos de estudo, mas como sujeitos históricos.

    O trabalho, nesse sentido, tem sido o de difundir o que tem sido produzido, na perspectiva, por exemplo, de construir análises que possam ser usadas na educação básica, como tem sido feito com o Dicionário de História de Pelotas que, em virtude do uso intenso, fez com que fosse lançado um segundo volume, com marco temporal agora a partir de 1960, que priorizou a reescrita de verbetes, quando havia novos estudos e a elaboração de novos verbetes, especialmente sobre a história dos bairros e das indústrias da cidade, não abordados no livro pioneiro.

    Foi a partir de experimentações no campo da História Pública feitos pelo NDH que se construiu a organização deste dossiê, o qual vocês têm acesso a partir de agora. Este número da revista traz seguintes os artigos: “Quem decide o que será lembrado? Inteligência artificial, acervos digitais e o futuro do direito à memória”, de Denis Ramon Funes Flores, que pensa a gestão de acervos, a partir do impacto do uso de ferramentas a cada dia mais tecnológicas; “Coletânea do Arquivo do Senado Federal e os desafios de uma História Pública dentro do Poder Legislativo”, de Alexandre Alves de Sousa Moreira, que analisa que tipo de História é produzida por servidores públicos relacionados a este órgão e “‘Histórias Compartilhadas’: a construção coletiva do passado na Coleção de História Oral do Museu da Imigração do Estado de São Paulo”, de Pedro Jardel Fonseca Pereira, que observa como os relatos de migrantes são difundidos na perspectiva da democratização do conhecimento.

    Dois artigos abordam a própria Universidade Federal de Pelotas, lugar em que o Núcleo de Documentação Histórica está inserido. Um deles tem como título: “Arquivos que revelam: o NDH/UFPel e suas articulações entre História Pública, democratização do conhecimento e História das Mulheres”, de Andreina Hardtke Corpes, que aborda, especialmente, o grande acervo documental de mais de 90 mil processos trabalhistas, já citado, e dialoga, de forma profícua, com os debates sobre gênero e o outro, que é intitulado “Memória contra o silêncio: o trabalho da Comissão Universitária da Verdade/UFPel como ferramenta para a prática da história pública”, de Nádia Coelho Kendzerski e Natasha Dias Castelli, que relata o trabalho que tem sido feito pela Comissão Universitária da Verdade da UFPel, desde o ano de 2024.

    Na parte que se relaciona à temática negra, estão os artigos: “Entre o trabalho e os filhos: maternidades e serviço doméstico na escravidão urbana (Rio de Janeiro, 1870)”, escrito por Núbia Sotini dos Santos, que pensa o assunto, a partir de anúncios de venda e aluguel de mulheres-mães escravizadas; “Roteiros negros no Paraná: estratégias de história pública e ensino de história antirracista”, escrito por Noemi Santos da Silva e Merylin Ricieli dos Santos, que abordam uma atividade de extensão realizada em três cidades paranaenses e “Babá x Borches – O possível primeiro negro do futebol pelotense”, escrito por Gabriel Gonçalves Ribeiro, que reflete sobre a inserção de atletas negros no futebol profissional pelotense.

    Três artigos abordam outras temáticas e regiões: “Da formação Coimbra à coordenação imperial: elites, províncias e unidade territorial no Brasil oitocentista em perspectiva ibero-americana”, de Thiago Perez Bernardes de Moraes, analisa a relação entre formação jurídico-burocrática das elites e a preservação territorial; o  artigo “Empório das Artes e a presença indígena no Museu de Arte Sacra do Pará: silenciamentos e desafios educativos”, de Diego Pereira Santos, Gabriel Ramos Pacheco, Laís Santos Sousa, Lorena Botelho Souza e Mariane Alves Borges, aborda a relevância de pensar espaços museológicos relacionados ao ensino de História e “Arquiteturas do Progresso: Manaus, a Belle Époque e o projeto urbano republicano na Amazônia”, de Janderson Gustavo Soares de Almeida, Clodoaldo Matias da Silva, Maria das Graças Maciel de Oliveira e Denison Melo de Aguiar, os quais pensam sobre o projeto urbano como espaço de progresso, memória e exclusão.

    O volume apresenta uma diversidade de temas, os quais apontam para novas abordagens historiográficas, bem como para um importante trabalho que tem sido feito para além das instituições universitárias, em um diálogo profícuo com a comunidade externa. 

    Uma boa leitura!

     

    Lorena Gill

    Alice Teixeira

    Flaviano Batista

    Editores do dossiê

     

    [1] https://wp.ufpel.edu.br/ndh/files/2024/09/UFPel-30-Anos.pdf Acesso em 14 de agosto de 2026.

    [2] https://wp.ufpel.edu.br/ndh/ Acesso em 14 de agosto de 2026.

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