v. 31 n. 2 (2026): História Pública: caminhos para a democratização do conhecimento já disponível!

A História Pública como uma possibilidade para democratizar o conhecimento

Public History as a Possibility for Democratizing Knowledge

 

O Núcleo de Documentação Histórica (NDH/UFPel) foi construído no ano de 1990 pela professora Beatriz Loner e seu surgimento se vincula à história e a memória institucional. Ocorre que em 1989 havia sido eleito e assumido a reitoria o médico Amilcar Gigante, que tinha uma grande preocupação em organizar aspectos sobre a história e a memória da UFPel e, por esse motivo, incentivou Beatriz a constituir um centro de documentação que pudesse reunir documentos e fotografias dispersas em diferentes unidades, faculdades e institutos, o que resultou em um projeto de extensão vigente até hoje.

Desde aquele período foram feitos contatos com diretores de unidade e coordenadores de curso com a intenção de falar sobre o projeto do NDH, ao mesmo tempo em que havia o oferecimento para que este novo espaço pudesse salvaguardar documentos, na maior parte das vezes, mal organizados e acondicionados de forma insatisfatória tendo em vista a falta de pessoal especializado na área, na instituição.

Além do recolhimento de materiais diversos, quando havia a acolhida, por parte dos gestores, Beatriz realizava entrevistas, através da modalidade de história oral, especialmente com professores e professoras considerados pioneiros e estas narrativas se encontram, atualmente, no Laboratório de História Oral, vinculado ao NDH, o qual conta com mais de 500 entrevistas, várias delas relacionadas à UFPel e outras vinculadas a diferentes projetos de pesquisas.

O resultado deste trabalho inicial, realizado nos primeiros anos da década de 1990, foi publicizado através de um livro, publicado em 1999, intitulado “UFPel: 30 anos”[1], organizado pelo professor Mario Osorio Magalhães, que contou com um capítulo escrito pela Beatriz Loner, que levou o nome de “UFPel: um breve histórico”.

Com o tempo, o perfil do acervo do NDH mudou especialmente ao receber, no ano de 2003, mais de 600 mil fichas de qualificação do Estado do RS, que estavam com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), as quais eram preenchidas pelos trabalhadores e trabalhadoras, quando da feitura da carteira profissional e, também, quando acolheu, em regime de comodato, do Memorial da Justiça do Trabalho, da 4ª região, 93.845 processos trabalhistas físicos, com marco temporal entre 1936 e 1998.

Os processos trabalhistas são procurados não só por pesquisadores de cursos diversos: História, Direito, Turismo, Ciências Sociais, mas também por pessoas da comunidade externa, que buscam os documentos a partir de três intenções principais: provar vínculo empregatício para obter a aposentadoria; relatar situações de insalubridade, quando estavam atuando e obter prova para a obtenção da dupla cidadania.

Mais recentemente, no entanto, a preocupação com a história institucional começou a se fazer presente, de uma forma mais densa, já que em plena pandemia de Covid-19 membros do NDH foram procurados para verificar as condições de um acervo encontrado em uma das salas da Faculdade de Medicina, o qual era composto por documentos de sua fundação como uma faculdade privada e laica, em 1963. Após este contato inicial os materiais foram recolhidos, higienizados e digitalizados, especialmente tendo em vista as dificuldades existentes para que pesquisadores tivessem acessos a documentos naquele período, de isolamento social, a bibliotecas e museus, os quais estavam fechados.

Decorrente deste trabalho com a Medicina foi publicado uma obra intitulada: Uma casa chamada Leiga”, de autoria de Lorena Almeida Gill e novos trabalhos foram sendo feitos como um que abordou a constituição da Faculdade de Enfermagem e Obstetrícia, no ano de 1977, por um grupo inicial de seis mulheres vindas da Bahia, sendo cinco delas negras e, também, uma publicação que se relacionou a mesma graduação de Medicina, mas com a abordagem de um Departamento em especial, o de Medicina Social, o qual estabeleceu políticas públicas de saúde relacionadas ao preconizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), bem antes deste ser implementado em 1988. Todos estes textos estão acessíveis no site do NDH[2].

A partir daí a estrutura de funcionamento do centro de documentação mudou através de diferentes medidas que foram sendo tomadas como a digitalização de praticamente todos os documentos que se tem acesso, como, por exemplo, os processos trabalhistas, uma vez que antes era feito apenas um resumo sobre cada um deles. Foi se construindo, com o tempo, a percepção de uma necessidade maior com a democratização do conhecimento produzido em uma Universidade pública, tanto para proporcionar um maior acesso quanto tendo em vista os desastres climáticos a cada dia mais presentes no mundo.

Um dos livros feitos no NDH, o Dicionário de História de Pelotas, reforçou essa perspectiva. Depois de lançado de forma física, em duas edições, as quais estão esgotadas, houve a publicação em formato e-book e essa possui mais de 153 mil visualizações sendo utilizada, especialmente por professores e jornalistas, como uma fonte bastante confiável para contar a história da cidade.

Um outro episódio foi impactante para a equipe, já que em 2019, houve a notícia de que o rapper cearense, Matuê, iria se apresentar em Pelotas, em uma antiga charqueada, a chamada Costa do Abolengo e tal fato promoveu debates nas redes sociais sobre se o local era adequado para se realizar atos comemorativos. Ocorre que um canal da internet, o Quadro em Branco, construiu um pequeno vídeo dizendo por qual motivo o cantor não deveria fazer uma apresentação em um lugar marcado pelo sofrimento e pela morte de escravizados e para embasar seus argumentos usou um artigo escrito por pesquisadores do NDH, Beatriz Loner; Lorena Gill e Micaele Scheer, intitulado “Enfermidade e morte: Os escravos na cidade de Pelotas, 1870-1880”. O vídeo, que ainda pode ser acessado pelo YouTube, teve cerca de 274 mil visualizações, à época, fazendo com que a equipe do artista desmarcasse o show na cidade.

Bem, o fato é que especialmente após dois eventos históricos importantes: a pandemia de Covid-19 e a enchente histórica vivida pelo Estado do RS, em 2024, se percebeu como seria importante garantir a preservação de documentos, bem como a democratização do que é produzido em uma universidade pública. Não se pode esquecer que relacionado ao desastre climático de 2024, cerca de 1.090 milhão de processos trabalhistas ficou debaixo d’água durante quase um mês em Porto Alegre. Uma parte considerável desse material faz parte do Programa Memória do Mundo, da UNESCO.

De toda a maneira, a História pública sempre foi uma preocupação do NDH, especialmente a partir da perspectiva de uma construção de saberes que envolva as pessoas não como objetos de estudo, mas como sujeitos históricos.

O trabalho, nesse sentido, tem sido o de difundir o que tem sido produzido, na perspectiva, por exemplo, de construir análises que possam ser usadas na educação básica, como tem sido feito com o Dicionário de História de Pelotas que, em virtude do uso intenso, fez com que fosse lançado um segundo volume, com marco temporal agora a partir de 1960, que priorizou a reescrita de verbetes, quando havia novos estudos e a elaboração de novos verbetes, especialmente sobre a história dos bairros e das indústrias da cidade, não abordados no livro pioneiro.

Foi a partir de experimentações no campo da História Pública feitos pelo NDH que se construiu a organização deste dossiê, o qual vocês têm acesso a partir de agora. Este número da revista traz seguintes os artigos: “Quem decide o que será lembrado? Inteligência artificial, acervos digitais e o futuro do direito à memória”, de Denis Ramon Funes Flores, que pensa a gestão de acervos, a partir do impacto do uso de ferramentas a cada dia mais tecnológicas; “Coletânea do Arquivo do Senado Federal e os desafios de uma História Pública dentro do Poder Legislativo”, de Alexandre Alves de Sousa Moreira, que analisa que tipo de História é produzida por servidores públicos relacionados a este órgão e “‘Histórias Compartilhadas’: a construção coletiva do passado na Coleção de História Oral do Museu da Imigração do Estado de São Paulo”, de Pedro Jardel Fonseca Pereira, que observa como os relatos de migrantes são difundidos na perspectiva da democratização do conhecimento.

Dois artigos abordam a própria Universidade Federal de Pelotas, lugar em que o Núcleo de Documentação Histórica está inserido. Um deles tem como título: “Arquivos que revelam: o NDH/UFPel e suas articulações entre História Pública, democratização do conhecimento e História das Mulheres”, de Andreina Hardtke Corpes, que aborda, especialmente, o grande acervo documental de mais de 90 mil processos trabalhistas, já citado, e dialoga, de forma profícua, com os debates sobre gênero e o outro, que é intitulado “Memória contra o silêncio: o trabalho da Comissão Universitária da Verdade/UFPel como ferramenta para a prática da história pública”, de Nádia Coelho Kendzerski e Natasha Dias Castelli, que relata o trabalho que tem sido feito pela Comissão Universitária da Verdade da UFPel, desde o ano de 2024.

Na parte que se relaciona à temática negra, estão os artigos: “Entre o trabalho e os filhos: maternidades e serviço doméstico na escravidão urbana (Rio de Janeiro, 1870)”, escrito por Núbia Sotini dos Santos, que pensa o assunto, a partir de anúncios de venda e aluguel de mulheres-mães escravizadas; “Roteiros negros no Paraná: estratégias de história pública e ensino de história antirracista”, escrito por Noemi Santos da Silva e Merylin Ricieli dos Santos, que abordam uma atividade de extensão realizada em três cidades paranaenses e “Babá x Borches – O possível primeiro negro do futebol pelotense”, escrito por Gabriel Gonçalves Ribeiro, que reflete sobre a inserção de atletas negros no futebol profissional pelotense.

Três artigos abordam outras temáticas e regiões: “Da formação Coimbra à coordenação imperial: elites, províncias e unidade territorial no Brasil oitocentista em perspectiva ibero-americana”, de Thiago Perez Bernardes de Moraes, analisa a relação entre formação jurídico-burocrática das elites e a preservação territorial; o  artigo “Empório das Artes e a presença indígena no Museu de Arte Sacra do Pará: silenciamentos e desafios educativos”, de Diego Pereira Santos, Gabriel Ramos Pacheco, Laís Santos Sousa, Lorena Botelho Souza e Mariane Alves Borges, aborda a relevância de pensar espaços museológicos relacionados ao ensino de História e “Arquiteturas do Progresso: Manaus, a Belle Époque e o projeto urbano republicano na Amazônia”, de Janderson Gustavo Soares de Almeida, Clodoaldo Matias da Silva, Maria das Graças Maciel de Oliveira e Denison Melo de Aguiar, os quais pensam sobre o projeto urbano como espaço de progresso, memória e exclusão.

O volume apresenta uma diversidade de temas, os quais apontam para novas abordagens historiográficas, bem como para um importante trabalho que tem sido feito para além das instituições universitárias, em um diálogo profícuo com a comunidade externa. 

Uma boa leitura!

 

Lorena Gill

Alice Teixeira

Flaviano Batista

Editores do dossiê

 

[1] https://wp.ufpel.edu.br/ndh/files/2024/09/UFPel-30-Anos.pdf Acesso em 14 de agosto de 2026.

[2] https://wp.ufpel.edu.br/ndh/ Acesso em 14 de agosto de 2026.

Publicado: 2026-08-29

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